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Você já se pegou assistindo a um remake ou reboot e pensando: “Não era bem assim que eu lembrava…”? Ou pior: “Pra quê mexer nisso?”
A nostalgia é poderosa — disso ninguém duvida. Mas quando o passado vira um produto mal reembalado, o risco de desconexão com o presente se torna inevitável. E aqui, vamos discutir como o mercado tem usado (e abusado) da nostalgia como estratégia e por que isso pode ser perigoso quando não há propósito, atualização real ou respeito ao que era e ao tempo atual.

O charme da lembrança (e o perigo do escapismo)
A nostalgia ativa emoções profundas: conforto, familiaridade, sensação de pertencimento – Falando por mim agora: que delícia pegar um balde de pipoca e assistir a saga inteira de Harry Potter ou Senhor dos Anéis pela milésima vez (sim, sou fã de carteirinha).

Em tempos incertos, como o que vivemos nos últimos anos, o apelo ao passado se torna quase irresistível. Marcas e estúdios sabem disso — e têm explorado essa memória coletiva como forma de criar conexão rápida com o público.
Mas… até que ponto revisitar o passado é uma boa ideia? E o que acontece quando essa visita não considera as transformações culturais, sociais e tecnológicas do presente?
Para além da emoção, a nostalgia também se tornou uma decisão prática. Trazer de volta algo que já funcionou é, muitas vezes, uma forma de economizar recursos — criativos, financeiros e até de risco. Novas versões de clássicos têm apelo imediato: são marcas já conhecidas, personagens já amados e histórias que já deram certo em algum momento. É mais fácil vender algo familiar do que apresentar o novo. Porém, o que parece uma escolha segura pode ser, na verdade, um atalho que compromete a relevância da mensagem.
Nem todo retorno é uma boa ideia
A novela “Vale Tudo” estreou essa semana. Ainda não sabemos como será recebida pelo público, mas há uma expectativa cautelosa. A produção, assinada por Manuela Dias, parece ter sido adaptada com sensibilidade, incorporando temas como redes sociais, desigualdade digital e os dilemas éticos do Brasil contemporâneo. Ainda assim, é um tiro no escuro: mexer com um clássico envolve risco — e exige mais do que um roteiro atualizado. É preciso respeitar a alma da obra e, ao mesmo tempo, conectar com o presente sem parecer oportunista.
Já o caso do remake de “Branca de Neve”, da Disney, se tornou um verdadeiro estudo de caso sobre como a nostalgia, quando mal executada, pode se voltar contra a própria marca. O filme, lançado com grande expectativa, sofreu um desgaste precoce ainda na fase promocional. A atriz principal, Rachel Zegler, chegou a fazer declarações públicas que soaram desconectadas do espírito da história original — incluindo críticas à própria narrativa de princesa e à figura do príncipe encantado. Isso gerou uma onda de rejeição antes mesmo da estreia.

Além disso, o filme tentou se atualizar com pautas contemporâneas, mas de forma superficial e mal integrada ao enredo. O resultado foi uma adaptação que nem agradou quem esperava uma releitura fiel, nem conquistou quem buscava inovação de verdade. Faltou equilíbrio entre propósito e forma, faltou escuta do público e, acima de tudo, faltou sensibilidade para entender que atualizar não é apagar o que já existiu — é transformar com inteligência.
O impacto foi direto: a bilheteria desapontou, a crítica foi dura e o público se dividiu. Segundo o Business Insider, o filme arrecadou apenas US$ 45 milhões nos Estados Unidos no primeiro fim de semana — uma marca extremamente baixa para os padrões da Disney. Esse fracasso mostra que não basta colocar um título clássico no cartaz e esperar que a memória afetiva faça o resto do trabalho.
Nostalgia não é escudo. Se for mal trabalhada, pode transformar expectativa em frustração e carinho em rejeição. O caso de Branca de Neve deixa um alerta claro: não se brinca com o imaginário coletivo sem responsabilidade criativa.
Em contrapartida, temos o caso de sucesso da marca Bruna Tavares, que em 2024 lançou uma coleção em parceria com a Hello Kitty, celebrando os 50 anos da personagem. A coleção apostou no apelo nostálgico das embalagens icônicas e ao mesmo tempo se conectou com um novo público — inclusive com a nova geração, representada pela filha da própria Bruna, que cocriou o projeto. Resultado? A coleção esgotou em poucas horas e reforçou a força da marca em unir afeto, memória e desejo contemporâneo.
Outro exemplo relevante é o retorno de Xuxa Meneghel com o álbum “Xuxa Só Para Baixinhos 14”. Após anos sem lançar novos volumes da série que marcou a infância de milhões de brasileiros, a Rainha dos Baixinhos voltou aos holofotes com um projeto que conversa tanto com os pais — que cresceram ao som de “Ilariê” (eu amava, e vocês?) — quanto com os filhos deles, as novas crianças que agora passam a conhecer esse universo lúdico e carismático.
O lançamento não buscou reinventar Xuxa, e sim reposicioná-la no tempo presente: as músicas mantêm a essência educativa e divertida, mas com novas roupagens, produção moderna e temas que dialogam com o agora. Essa reconexão com o público original, somada à introdução da marca “Xuxa” a uma nova geração, mostra como a nostalgia pode ser ferramenta de continuidade — e não apenas de repetição.
Porém, o retorno da “Rainha dos Baixinhos” gerou uma mistura de entusiasmo e controvérsia. Enquanto muitos fãs celebraram a volta da série que marcou gerações, a capa do álbum suscitou debates acalorados nas redes sociais. Na imagem, Xuxa aparece com um visual colorido e cercada de bichinhos de pelúcia, mas com as pernas à mostra. O que levou alguns internautas a questionarem se a estética escolhida seria apropriada para um público infantil, sugerindo que o figurino não condizia com a proposta do projeto.

Essas reações evidenciam os desafios de revisitar obras icônicas: é fundamental equilibrar a nostalgia com as expectativas e sensibilidades contemporâneas. Tanto o caso de Xuxa, como o remake da gigante Disney, ilustram como a intenção de conectar passado e presente pode ser complexa, exigindo uma compreensão profunda do público atual e uma abordagem cuidadosa para evitar desconexões ou interpretações indesejadas.
Pra finalizar
A nostalgia, quando bem utilizada, pode ser uma ponte emocional poderosa entre marcas e consumidores. Mas quando usada de forma rasa, vira armadilha.
Em vez de tocar, repele. Em vez de conectar, confunde.
Os exemplos que discutimos — do fracasso de Branca de Neve, da aposta arriscada em Vale Tudo, até os bons resultados de Bruna Tavares e o retorno controverso de Xuxa — deixam claro que revisitar o passado exige mais do que intenção: exige responsabilidade criativa e visão estratégica.
E para elucidar ainda mais o que não fazer, aqui vão três características de um fracasso anunciado:
Nostalgia sem profundidade é oportunismo. O público percebe quando algo é relançado apenas para explorar memórias afetivas, sem entrega real.
Atualização de discursos precisa ser integrada à estrutura da narrativa — e não aplicada como uma camada superficial. A inovação só faz sentido quando nasce de dentro, não como um enfeite externo.
O público reconhece quando está sendo manipulado emocionalmente sem entrega de valor real. Conexão verdadeira exige entrega, consistência e escuta.
Se você é um(a) empreendedor(a), gestor(a) ou criador(a) de conteúdo, vale refletir:
Será que sua marca está apenas repetindo o que funcionou antes? Ou está reinterpretando com propósito, contexto e consciência de tempo?
Porque no fim das contas, marketing não é sobre o que você revive.
É sobre o que você transforma.
E transformar, meus amigos, exige coragem de olhar para o presente com mais profundidade do que para o passado com saudade.
Referências e leituras recomendadas:
Branca de Neve – Remake da Disney
Vale Tudo – Novela Rede Globo
Bruna Tavares e Hello Kitty
Xuxa Só Para Baixinhos 15

